
Onde fomos algum dia, Fátima?
Dias em que a chuva veio
Dias em que o rio esteve cheio
Até transbordar em lágrimas
Cegos, algum dia, por um caminho desprezado
procuramos uma sombra que nos acoite
mas nada resta... nem Florbela, nem a noite
nem um sorriso desgraçado
Mas, algum dia... Algum dia é muito vago
Vago demais para um pacto
como um nenúfar perdido num lago
Tão vago, mas não lago... Agreste!
Como a vida de um cacto
Como a saudade do beijo que me deste
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Algum dia, Fátima...
Autor:
Raphael Alves
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14:51
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Domingo, enfim
às manhãs, meios-dias e fins de tarde
em silêncio, com meu jornal repetido
Canto em paz, sem fazer alarde
Canto embaixo das árvores,
um canto descansado, dissonante
que pinta a solidão nos bancos de mármore
um nó na garganta... Rascante!
Canto as notas que auferia
da partitura de domingo, enfim
Canto como preferiria
Mas não é sempre que canto assim
Canto porque é domingo. Domingo de dia!
e domingos são dias sem fim
Autor:
Raphael Alves
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23:05
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sábado, 27 de setembro de 2008
No fim das contas

Dias se vão, mas não em vão...
É a mais pura aritmética
E deténs toda razão
Em mãos! Menos a trigonométrica
Se te subtrai pela tangente, tanto faz...
Então, o que me somam cossenos?
Pois, no fim das contas, cada dia a mais
é, na verdade, só um dia a menos
Autor:
Raphael Alves
às
19:49
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sábado, 6 de setembro de 2008
Pela Madrugada

Somes, às vezes, em névoa, na estrada
Sem ver, procuro-te ainda no escuro
Saio por ti, mas não é seguro
pois já és alvorada
– Não me aches! – pedes, contrariada
Cercas-te por um muro
que – rogo eu (logo eu...) – cairá no futuro
ou, quiçá, na nova madrugada...
E somes, com tuas certezas
Partes de vez até amanhã... Nem me despeço
E de manhã, restarão lâmpadas acesas
Somes, agora, por dentre espadas e cruzes
E até penso em pedir, mas não peço
que antes de amanhecer, apagues as luzes
Autor:
Raphael Alves
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15:24
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Canção por uma lágrima

Choras por chorar... Por nada, por ninguém
e nestas doces lágrimas a ti invejo
pois chorar sem porquê é meu desejo
não apenas por sonhar, nem por não ter alguém
Choras por pureza... Um choro que apenas vem...
Cada lágrima um ensejo
Não derramo nada... Nem pelo que vejo,
nem por não amar, nem por não ter a quem
Cancioneiro, cancioneiro... Tua poesia jamais finda
Então, diz-me por que chorar!
Diz-me por que não chorei ainda...
Faz-me uma lágrima, mesmo que não seja linda...
Por que apenas por podê-la derramar
minha lágrima será bem vinda
Autor:
Raphael Alves
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20:20
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domingo, 10 de agosto de 2008
Ao pai

Pai, onde estás, meu pai?
Aonde vais?
(Meu pai, que estás onde estás...)
Pai,
alimenta-me... Tenho fome...
(... desmistificado seja teu nome...)
Pai,
não encontro mais meus brinquedos
(... venham a mim os teus medos...)
Pai,
abraça-me, que sinto saudades
(... sejam desfeitas tuas verdades...)
Pai,
temo o que esta vida encerra
(...seja no céu, seja na terra...)
Pai,
cobre-me, que a madrugada é de ventania
(E o julgamento de cada dia...)
Pai,
não me mantenhas tão longe
(..nega-me apenas hoje...)
Pai,
de horas de silêncio tão intensas
(...aceita minhas descrenças...)
Pai,
jamais foste esquecido
(...como aceitei-me perdido...)
Pai,
não enxergo nesta escuridão
(... e não me falte tua mão...)
Pai,
Meu pai, do começo ao final
(...nem me leves a mal...)
Pai,
Que assim sejamos... Amém
(...ou além!)
Autor:
Raphael Alves
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19:02
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Lídia e as orquídeas

Lídia, deixa-me sozinho
que provei das agruras dos fracos
bem distante quanto as estrelas em Draco
E era tão bom! E era teu ninho...
E, enfim, encontraria os delírios de Baco
em teus lábios de linho
Não, não era vinho...
Cheiravam a tabaco
Lídia, Lídia...
O que fizeste às orquídeas?
Pensei que fugiam...
E pensei que era sono
mas já era outono
e as folhas caíam...
Autor:
Raphael Alves
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23:21
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sexta-feira, 18 de julho de 2008
Soneto da Partida

Partirei porque partirei
Assim, apenas! Não porque havias partido
E, deste estado a partir, até sei
que nenhuma partida faz sentido
Partirei não antes de novembro
mas que me leve o pensamento ao porto
de tão leve que, de pensar, nem me lembro
e de não lembrar que, ao partir, já esteja morto
Não parte em dezembro senão porque é janeiro
E, de tanto que não parti, já nem sei onde chego
E, de tanta água no rio, já vejo-me cego
Parte, hoje, o barco... parte por inteiro!
E talvez nem parta porque, de partida, me entrego
como lágrima de mágoa na imensidão do Negro
Autor:
Raphael Alves
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00:21
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sexta-feira, 20 de junho de 2008
Chorinho a dois

- Amigo...
(- Diga o que há?)
- Preciso do teu ombro...
(- Você terá!)
- Meu lar está em escombros...
(- Você andou ausente...)
- É... Eu estou resignado...
São fantasmas do passado...
(- Tem que olhar pra frente!)
- Mas na vida se sofre no presente...
- Parceiro....
(- É com você!)
- Estou sem saúde...
(- Não posso crer...)
- Perdendo a juventude
(- Estamos, sim!)
- É... a alegria está aquém.
E eu não tenho mais ninguém.
(- Você tem a mim!)
- Liberdade pode ser ruim!
- Antônio...
(- Diga, José!)
- A moça me deixou...
(- Mantenha a fé!)
- E de nós nada restou...
(- Conte-me mais!)
- É... Acabou-se a lua-de-mel...
Hoje, o meu teto é o céu
(- Força, rapaz!)
- Solidão já não me deixa em paz...
- Amigo...
(- Vamos lá!)
- E isso no meu peito?
(- Já vai passar!)
- Do que é feito?
(- Da vida a dois!)
- Ah... Sinto-me tão sozinho...
Eu choro como um cavaquinho...
(- Vai curar depois!)
- Vamos juntos num chorinho a dois!
- Ei, amigo...
(- Qual é a idéia?)
- Passe-me o tablóide!
(- Notícia velha!)
- Que tal um Pink Floyd?
(- Uma boa idéia, afinal!)
- Ah... Já estive bem pior
Dentre os amigos, você é o melhor...
(- Já estou sentimental!)
- É... Amizade nunca tem igual...
(Uma singela homenagem aos amigos)
Autor:
Raphael Alves
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19:20
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segunda-feira, 16 de junho de 2008
Gritar por gritar

Queria gritar, mas já anoiteceu
e o mundo aqui dentro... bem, escureceu
Vão me faltando os lenços
e uma pedra para ferir o silêncio
Queria gritar só por gritar, mas gritar de um jeito
Pôr para fora do peito
aquilo que me arde
mas não posso... já é tarde... já é tarde
Mas, amanhã... amanhã, será diferente
Vou gritar bem cedo
Chega de ter medo!
Vou gritar um grito que conserte a gente...
Autor:
Raphael Alves
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23:05
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domingo, 15 de junho de 2008
Obra de Deus

Andei pensando e nem mais duvido...
Quem definiu felicidade
não fora feliz de verdade
havia apenas enlouquecido
Pensando e pensando depois de partido...
Tu que inventaste a saudade
agora diz-me a finalidade
que, para mim, não faz sentido
E os que se julgam tão esclarecidos
dizem, em tom de ironia:
- Meu jovem, delírios teus!
Não dou ouvidos...
Prefiro chamar de poesia
ou, simplesmente, “obra de Deus”
Autor:
Raphael Alves
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06:31
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sexta-feira, 6 de junho de 2008
Quis um poema sobre a tristeza...

Quis um poema sobre a tristeza
para descrever a noite de frio
e das cousas a natureza
Quis viver os dias com frieza
mas não estou vazio
ainda há gotas de pureza
Quis um momento de clareza
para viver arredio
para viver tanta beleza
Quis pensar sem tanta certeza
sobre a vida por um fio
sem palavras sobre a mesa
Quis escrever um poema com tristeza
mas não me deixou o rio
não me deixou a correnteza
Autor:
Raphael Alves
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16:59
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terça-feira, 3 de junho de 2008
Um soneto inevitável

Era só uma vaga lembrança
daqueles tempos incertos
de palavras de concreto
o sorriso de criança
E até quis ouvir estrelas
mas nesta vida de adulto
passam prédios, viadutos
e sequer podia vê-las
É preciso tempo para que se retome
quando as pessoas sequer têm nome
tudo é inexplicável
Fazia tempo, mas eu já sabia
que, como o pôr-do-sol de cada dia,
seria inevitável
Autor:
Raphael Alves
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00:20
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quinta-feira, 24 de abril de 2008
Sei lá, Vento...

Sei lá se é apenas teu costume
Não obstante, alguém à distância
visitar-te a lembrança
E tomar-te o perfume
Há quem apenas te assista
acariciar as flores
dar vida às paisagens sem cores
e levar as páginas das revistas
Mais que isso, teu sopro fascina
– confessam as criaturas mais mundanas –
no balanço das canaranas
ecoas a mim: – Tua terra, minha sina
E em meio às partidas mais inglórias
enovela-te nos lugares mais profundos
aliviando todas as dores do mundo
em suas asas, minhas memórias
És quem me assobias os versos de Camões
e nunca se sabe o que trarás
Tu sabes? Então, assobia mais
para libertar-nos dos grilhões
És mais que bastante, outrossim
justo, porém traiçoeiro
Trouxeste de volta o primeiro
sem te explicares a mim
Ah, Vento! Sei lá...
Nem sei o que sentir
Apenas sei que sem ti
Não existe nenhum lugar
Autor:
Raphael Alves
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16:37
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sexta-feira, 18 de abril de 2008
Pequena análise do tempo

Um certo dia, quis que coubesse
nas primeiras entrelinhas
uma palavra que não fosse a minha
Nesse passado, implorei que viesses
após o inverno com que ainda sonhas
ou numa daquelas primaveras risonhas
Hoje, apenas gostaria que soubesses
que se foram as águas de março
e eu nem sei o que faço
Mas amanhã, espero que confesses:
Estes versos já foram lidos
mas nada me impede de sussurrá-los em teus ouvidos
Autor:
Raphael Alves
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01:06
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
Soneto Quadrilátero

Vivo em meio a um quadrilátero
que me parece desigual
longe da medida ideal...
Mas que – juram seus lados – é equilátero
Vivo enquadrado pelos quatro elementos:
ar, água, terra e fogo
como os dados de um jogo
no tabuleiro da rosa-dos-ventos
Vivo enquadrado em trâmites do Direito
enclausurado dentre trovas
sufocado em ar rarefeito
Vivo enquadrado... Antes fosse apenas suspeito!
E estes versos – confesso – são as provas
evidências de um crime imperfeito
Autor:
Raphael Alves
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22:50
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sábado, 29 de março de 2008
Ensaio sobre a aridez

Ora, vamos...
Sei que falareis
sobre os solos inférteis
narrados por Ramos
Sobre tais vidas secas
sobre sedes inglórias
não tenho provas, mas muitas memórias
histórias quixotescas...
Então para que ledes sobre cegueira e lucidez?
A loucura que se manifeste
em dias ardentes como chama
Pois quero mesmo a aridez
num sopro de vento agreste
que me devolva aos lábios secos do Atacama
Autor:
Raphael Alves
às
16:03
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sexta-feira, 21 de março de 2008
De ondes...

De onde a angústia vem?
Vem com o calor, ou como calafrio?
Vem pelo ar? Vem pelo rio?
Vem por que, quando e de quem?
De onde vem tal questão intransitiva?
Sem complemento...
A todo momento...
Solta em mim, à deriva
De onde vem o verbo a que me refiro?
Se antes de dizê-lo
já o retiro
Por que seguiu para o horizonte?
E já que não pude detê-lo
alguém me esconda... alguém me conte
Autor:
Raphael Alves
às
20:34
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quarta-feira, 5 de março de 2008
Quase um soneto sobre o que não se soube dizer

Preciso de um verbete... apenas um
que tenha algo a falar
ou que ao menos sirva para completar
seja simples como um ‘oi’, ou um verbo incomum
Preciso de uma palavra para quebrar esse jejum
com a qual eu cansaria de dialogar
e também de alugar
sem chegar a lugar algum
Só preciso de uma palavra...
Uma palavrinha qualquer...
ou de um dicionário inteiro!
Uma que ilustre o que é
ser desta falta de palavras prisioneiro
(...)
Autor:
Raphael Alves
às
21:14
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sábado, 1 de março de 2008
Diário de viagem

Houve muitos dias...
Muito mais que alegrias
escondidas na bagagem
desta curta e finita viagem
Houve fantasia...
Muito mais que poesia
escolhida numa triagem
para esta longa e infinita mensagem
E há este relicário
cujo valor imaginário
é o de um dia que fora eterno
Mas acaba em São João
e se todos verão
eu, humildemente, inverno
Autor:
Raphael Alves
às
19:01
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