
Tanta coisa na beira do rio acontece
É o trabalho do canoeiro
É o casal namorando no outeiro
e um vento que abençoa como prece
E lá no rio é tanta corredeira
tanta pressa pra tanta solidão
É... Assim, sentada aqui no beiradão
até a vida passa a vida inteira
Até a tristeza passa num clarão
vai num barquinho de madeira
que de tão pequeno navega em vão
Navega perdido pelo entardecer
como esses olhos que, de alguma maneira,
fizeram este rio inteiro nascer
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Na beira do rio
Autor:
Raphael Alves
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18:08
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Daqui de cima
Daqui de cima, o fim da tarde
Estou pensando em muito mais...
Onde vou deitar o meu olhar?
Será que a espera é demais?
Será que é muito pedir paz?
Será que há pouco pra sonhar?
Onde repousar o meu olhar?
Distraída, a cidade apenas escuta
O sol padece e perde a luta
E a noite chega pra acalmar
Onde repousar o meu olhar?
Se uma estrela me ouvir
Diga a Deus que eu vou sair
E à meia-noite vou voltar
Mas onde vou deitar o meu olhar?
Autor:
Raphael Alves
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00:56
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sábado, 25 de julho de 2009
Lux Aeterna
O que está feito está feito
e somente à terra diz respeito
e o que se foi retorna ao pó
Para aprender o que jamais morre
é preciso morrer existindo
bem mais que viver desistindo
porque o tempo em si corre
E se a terra insiste
em cobrir o que se encerra
há três letras que ninguém traduz
É o que sempre existe
e não retorna à terra
porque ninguém jamais enterra a LUZ
Autor:
Raphael Alves
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11:16
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quarta-feira, 15 de abril de 2009
Vai-e-Vem
no meio dum bosque, duma praça
Vai-e-Vem com leveza, com graça
Se vai-vem, que mal tem?
Vai-e-Vem, mesmo estando preso
ainda levas e trazes os sonhos
daqueles rostinhos risonhos
De tão forte, indefeso...
Um sopro que ao ar vive...
No vento em movimento, ecoa tua voz
Ali estás, acorrentado porém livre!
Balanço, ó balanço!
Poderíamos ainda ser nós
mas cresci e não te alcanço
Autor:
Raphael Alves
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00:09
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terça-feira, 3 de março de 2009
Então Chove
(I)
E aqueles que lá estavam
falavam, falavam
Muito! Como loucos!
Mas levanto e, em grito, meu troco!
E os que falavam
agora apenas se entreolhavam
Observavam-me ficar rouco:
— Calem-se! Quero em silêncio ouvi-la!
É a chuva! A tão esperada chuva!
Vejam como cai tranquila...
— Calem-se todos, por favor!
Ouçam, pois nem tudo é chuva,
mas toda chuva lembra um amor
(II)
— Sou eu, Precipitação!
Disse ela sem ver a quem, sem distinção
para guarda-chuvas largos e ruas estreitas
— A chuva vem chovendo — assim ela mesma cantou.
Nuvem cinza que a todos surpreende
E vem chovendo palavras que ninguém entende
Umedecendo as folhas da árvore que agitou
Ó nuvens claras que vem com o romper da aurora,
sois tão indecisas!
Nem sois tão claras quanto outrora!
Sois apenas pobres nuvens sobre a cidade
Que, perdidas, tentam denunciar algumas brisas
Mas hoje é mesmo dia de tempestade
Autor:
Raphael Alves
às
16:59
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domingo, 14 de dezembro de 2008
Sibilinamente
Quisera eu transformar-me em silhueta
num fim de tarde violeta
pelas ruas, por cima dos muros
caminhar como sussurro
Quisera eu olhar enfim
Sibilino assim
como um suave murmuro
e, então, só haveria escuro...
Quisera, quisera tanto
cobrir-me com a noite, teu manto
mas para mim não há lugar
Quisera... Contudo, entretanto...
não percebo teus encantos
e para mim não há luar
Autor:
Raphael Alves
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00:25
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sábado, 13 de dezembro de 2008
Futura saudade
Como nas histórias mais belas,
de palavras colhidas em cestos de vime
deixam pegadas em terra firme
e querem mais altas as estrelas
Fecham os olhos e basta um segundo
— Vejam: uma bola de futebol em forma de lata!
O grande herói, ou o mais cruel dos piratas
Viajam para qualquer lugar do mundo
E eu os vejo em meu pensamento
Como as cores do catavento
Ou comandantes duma enorme nau
Ah, mantê-los assim... Minha esperança!
Mas logo serão primaveras em minha lembrança
Crianças que correram em meu quintal
Autor:
Raphael Alves
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22:33
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Algum dia, Fátima...

Onde fomos algum dia, Fátima?
Dias em que a chuva veio
Dias em que o rio esteve cheio
Até transbordar em lágrimas
Cegos, algum dia, por um caminho desprezado
procuramos uma sombra que nos acoite
mas nada resta... nem Florbela, nem a noite
nem um sorriso desgraçado
Mas, algum dia... Algum dia é muito vago
Vago demais para um pacto
como um nenúfar perdido num lago
Tão vago, mas não lago... Agreste!
Como a vida de um cacto
Como a saudade do beijo que me deste
Autor:
Raphael Alves
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14:51
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Domingo, enfim
às manhãs, meios-dias e fins de tarde
em silêncio, com meu jornal repetido
Canto em paz, sem fazer alarde
Canto embaixo das árvores,
um canto descansado, dissonante
que pinta a solidão nos bancos de mármore
um nó na garganta... Rascante!
Canto as notas que auferia
da partitura de domingo, enfim
Canto como preferiria
Mas não é sempre que canto assim
Canto porque é domingo. Domingo de dia!
e domingos são dias sem fim
Autor:
Raphael Alves
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23:05
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sábado, 27 de setembro de 2008
No fim das contas

Dias se vão, mas não em vão...
É a mais pura aritmética
E deténs toda razão
Em mãos! Menos a trigonométrica
Se te subtrai pela tangente, tanto faz...
Então, o que me somam cossenos?
Pois, no fim das contas, cada dia a mais
é, na verdade, só um dia a menos
Autor:
Raphael Alves
às
19:49
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sábado, 6 de setembro de 2008
Pela Madrugada

Somes, às vezes, em névoa, na estrada
Sem ver, procuro-te ainda no escuro
Saio por ti, mas não é seguro
pois já és alvorada
– Não me aches! – pedes, contrariada
Cercas-te por um muro
que – rogo eu (logo eu...) – cairá no futuro
ou, quiçá, na nova madrugada...
E somes, com tuas certezas
Partes de vez até amanhã... Nem me despeço
E de manhã, restarão lâmpadas acesas
Somes, agora, por dentre espadas e cruzes
E até penso em pedir, mas não peço
que antes de amanhecer, apagues as luzes
Autor:
Raphael Alves
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15:24
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Canção por uma lágrima

Choras por chorar... Por nada, por ninguém
e nestas doces lágrimas a ti invejo
pois chorar sem porquê é meu desejo
não apenas por sonhar, nem por não ter alguém
Choras por pureza... Um choro que apenas vem...
Cada lágrima um ensejo
Não derramo nada... Nem pelo que vejo,
nem por não amar, nem por não ter a quem
Cancioneiro, cancioneiro... Tua poesia jamais finda
Então, diz-me por que chorar!
Diz-me por que não chorei ainda...
Faz-me uma lágrima, mesmo que não seja linda...
Por que apenas por podê-la derramar
minha lágrima será bem vinda
Autor:
Raphael Alves
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20:20
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domingo, 10 de agosto de 2008
Ao pai

Pai, onde estás, meu pai?
Aonde vais?
(Meu pai, que estás onde estás...)
Pai,
alimenta-me... Tenho fome...
(... desmistificado seja teu nome...)
Pai,
não encontro mais meus brinquedos
(... venham a mim os teus medos...)
Pai,
abraça-me, que sinto saudades
(... sejam desfeitas tuas verdades...)
Pai,
temo o que esta vida encerra
(...seja no céu, seja na terra...)
Pai,
cobre-me, que a madrugada é de ventania
(E o julgamento de cada dia...)
Pai,
não me mantenhas tão longe
(..nega-me apenas hoje...)
Pai,
de horas de silêncio tão intensas
(...aceita minhas descrenças...)
Pai,
jamais foste esquecido
(...como aceitei-me perdido...)
Pai,
não enxergo nesta escuridão
(... e não me falte tua mão...)
Pai,
Meu pai, do começo ao final
(...nem me leves a mal...)
Pai,
Que assim sejamos... Amém
(...ou além!)
Autor:
Raphael Alves
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19:02
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Lídia e as orquídeas

Lídia, deixa-me sozinho
que provei das agruras dos fracos
bem distante quanto as estrelas em Draco
E era tão bom! E era teu ninho...
E, enfim, encontraria os delírios de Baco
em teus lábios de linho
Não, não era vinho...
Cheiravam a tabaco
Lídia, Lídia...
O que fizeste às orquídeas?
Pensei que fugiam...
E pensei que era sono
mas já era outono
e as folhas caíam...
Autor:
Raphael Alves
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23:21
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sexta-feira, 18 de julho de 2008
Soneto da Partida

Partirei porque partirei
Assim, apenas! Não porque havias partido
E, deste estado a partir, até sei
que nenhuma partida faz sentido
Partirei não antes de novembro
mas que me leve o pensamento ao porto
de tão leve que, de pensar, nem me lembro
e de não lembrar que, ao partir, já esteja morto
Não parte em dezembro senão porque é janeiro
E, de tanto que não parti, já nem sei onde chego
E, de tanta água no rio, já vejo-me cego
Parte, hoje, o barco... parte por inteiro!
E talvez nem parta porque, de partida, me entrego
como lágrima de mágoa na imensidão do Negro
Autor:
Raphael Alves
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00:21
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sexta-feira, 11 de julho de 2008
Calçada de Domingo

Já acordara a beijar o solo com semblante ranzinza
E nas palavras dos sábios:
De que haviam estes lábios
tentar roubar-lhe o cinza?
Um dia ao beijá-la com tamanho impacto
havia de sair ferido decerto
mas, tal como bloco de concreto
permanece o peito hirsuto, ileso, intacto
Lá estava quem me tinha por vencido
e imóvel persiste!
Soubera ela que quem apenas nos sonhos existe
não pode ter numa calçada amanhecido?
Inda posto a levantar, via cada passarela
e os quarteirões, meios-fios e sinaleiros...
praças, esquinas, o mundo inteiro
tudo inicia, termina e pertence a ela
Afinal, é ela de tudo a base, o chão,
o porquê de alguns decidirem calar
enquanto prefiro por ela passear
sem rumo, até seqüestrar-me a razão
Jaz sobre ela o papel de lar de tantos aflitos
é dela a única certeza de saudade
a vastidão de todas numa única cidade
o cerne da paz e do conflito
Ungida pelo pó de meus versos tão banais
estes lembrá-la-ão dos que a perseguem
e que os passos por ela passam, seguem
mas as pegadas não a deixam jamais
Lê-se em sua construção
que repousa no olvido
que a música nunca fez tanto sentido
que nem tudo é rumo para a ilusão
Infringida por um corpo mendigo
uma alma presa à pedra inacabada
tal como é sutilmente repousada
na calçada uma manhã de domingo
Agora em seus canteiros um sonho malfazejo
de buscar as mãos, o colo da calçada
e olhar em seus olhos na alvorada
antes de dar-me de novo ao seu beijo
Autor:
Raphael Alves
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15:12
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sexta-feira, 20 de junho de 2008
Chorinho a dois

- Amigo...
(- Diga o que há?)
- Preciso do teu ombro...
(- Você terá!)
- Meu lar está em escombros...
(- Você andou ausente...)
- É... Eu estou resignado...
São fantasmas do passado...
(- Tem que olhar pra frente!)
- Mas na vida se sofre no presente...
- Parceiro....
(- É com você!)
- Estou sem saúde...
(- Não posso crer...)
- Perdendo a juventude
(- Estamos, sim!)
- É... a alegria está aquém.
E eu não tenho mais ninguém.
(- Você tem a mim!)
- Liberdade pode ser ruim!
- Antônio...
(- Diga, José!)
- A moça me deixou...
(- Mantenha a fé!)
- E de nós nada restou...
(- Conte-me mais!)
- É... Acabou-se a lua-de-mel...
Hoje, o meu teto é o céu
(- Força, rapaz!)
- Solidão já não me deixa em paz...
- Amigo...
(- Vamos lá!)
- E isso no meu peito?
(- Já vai passar!)
- Do que é feito?
(- Da vida a dois!)
- Ah... Sinto-me tão sozinho...
Eu choro como um cavaquinho...
(- Vai curar depois!)
- Vamos juntos num chorinho a dois!
- Ei, amigo...
(- Qual é a idéia?)
- Passe-me o tablóide!
(- Notícia velha!)
- Que tal um Pink Floyd?
(- Uma boa idéia, afinal!)
- Ah... Já estive bem pior
Dentre os amigos, você é o melhor...
(- Já estou sentimental!)
- É... Amizade nunca tem igual...
(Uma singela homenagem aos amigos)
Autor:
Raphael Alves
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19:20
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segunda-feira, 16 de junho de 2008
Gritar por gritar

Queria gritar, mas já anoiteceu
e o mundo aqui dentro... bem, escureceu
Vão me faltando os lenços
e uma pedra para ferir o silêncio
Queria gritar só por gritar, mas gritar de um jeito
Pôr para fora do peito
aquilo que me arde
mas não posso... já é tarde... já é tarde
Mas, amanhã... amanhã, será diferente
Vou gritar bem cedo
Chega de ter medo!
Vou gritar um grito que conserte a gente...
Autor:
Raphael Alves
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23:05
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domingo, 15 de junho de 2008
Obra de Deus

Andei pensando e nem mais duvido...
Quem definiu felicidade
não fora feliz de verdade
havia apenas enlouquecido
Pensando e pensando depois de partido...
Tu que inventaste a saudade
agora diz-me a finalidade
que, para mim, não faz sentido
E os que se julgam tão esclarecidos
dizem, em tom de ironia:
- Meu jovem, delírios teus!
Não dou ouvidos...
Prefiro chamar de poesia
ou, simplesmente, “obra de Deus”
Autor:
Raphael Alves
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06:31
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sexta-feira, 6 de junho de 2008
Quis um poema sobre a tristeza...

Quis um poema sobre a tristeza
para descrever a noite de frio
e das cousas a natureza
Quis viver os dias com frieza
mas não estou vazio
ainda há gotas de pureza
Quis um momento de clareza
para viver arredio
para viver tanta beleza
Quis pensar sem tanta certeza
sobre a vida por um fio
sem palavras sobre a mesa
Quis escrever um poema com tristeza
mas não me deixou o rio
não me deixou a correnteza
Autor:
Raphael Alves
às
16:59
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