segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Na beira do rio


Tanta coisa na beira do rio acontece
É o trabalho do canoeiro
É o casal namorando no outeiro
e um vento que abençoa como prece

E lá no rio é tanta corredeira
tanta pressa pra tanta solidão
É... Assim, sentada aqui no beiradão
até a vida passa a vida inteira

Até a tristeza passa num clarão
vai num barquinho de madeira
que de tão pequeno navega em vão

Navega perdido pelo entardecer
como esses olhos que, de alguma maneira,
fizeram este rio inteiro nascer

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Daqui de cima


Calam as vozes da cidade
Daqui de cima, o fim da tarde
Estou pensando em muito mais...

Onde vou deitar o meu olhar?

Será que a espera é demais?
Será que é muito pedir paz?
Será que há pouco pra sonhar?

Onde repousar o meu olhar?

Distraída, a cidade apenas escuta
O sol padece e perde a luta
E a noite chega pra acalmar

Onde repousar o meu olhar?

Se uma estrela me ouvir
Diga a Deus que eu vou sair
E à meia-noite vou voltar

Mas onde vou deitar o meu olhar?

sábado, 25 de julho de 2009

Lux Aeterna



(Homenagem a N.J.F.L.)

Aprendi por aprender que tempo e ser são um só
O que está feito está feito
e somente à terra diz respeito
e o que se foi retorna ao pó

Para aprender o que jamais morre
é preciso morrer existindo
bem mais que viver desistindo
porque o tempo em si corre

E se a terra insiste
em cobrir o que se encerra
há três letras que ninguém traduz

É o que sempre existe
e não retorna à terra
porque ninguém jamais enterra a LUZ

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vai-e-Vem

Vai-vem, vai-vem, Vai-e-Vem
no meio dum bosque, duma praça
Vai-e-Vem com leveza, com graça
Se vai-vem, que mal tem?

Vai-e-Vem, mesmo estando preso
ainda levas e trazes os sonhos
daqueles rostinhos risonhos
De tão forte, indefeso...

Um sopro que ao ar vive...
No vento em movimento, ecoa tua voz
Ali estás, acorrentado porém livre!

Balanço, ó balanço!
Poderíamos ainda ser nós
mas cresci e não te alcanço

terça-feira, 3 de março de 2009

Então Chove

(I)



Foi-se o tempo fechando aos poucos
E aqueles que lá estavam
falavam, falavam
Muito! Como loucos!

Mas levanto e, em grito, meu troco!
E os que falavam
agora apenas se entreolhavam
Observavam-me ficar rouco:

— Calem-se! Quero em silêncio ouvi-la!
É a chuva! A tão esperada chuva!
Vejam como cai tranquila...

— Calem-se todos, por favor!
Ouçam, pois nem tudo é chuva,
mas toda chuva lembra um amor

(II)

A chuva vem chegando, assim, de espreita
— Sou eu, Precipitação!
Disse ela sem ver a quem, sem distinção
para guarda-chuvas largos e ruas estreitas

— A chuva vem chovendo — assim ela mesma cantou.
Nuvem cinza que a todos surpreende
E vem chovendo palavras que ninguém entende
Umedecendo as folhas da árvore que agitou

Ó nuvens claras que vem com o romper da aurora,
sois tão indecisas!
Nem sois tão claras quanto outrora!

Sois apenas pobres nuvens sobre a cidade
Que, perdidas, tentam denunciar algumas brisas
Mas hoje é mesmo dia de tempestade

(III)



Se me amas, ó Chuva,
ama-me calada
não o digas às telhas
nem às copas das árvores
nem às rosas vermelhas
nem às estátuas de mármore

Se me amas, ó Chuva,
mesmo que torrente sejas leve
deixa-me seguir minha jornada
pois a vida é breve
e o amor uma sinuosa estrada

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sibilinamente



Quisera eu transformar-me em silhueta
num fim de tarde violeta
pelas ruas, por cima dos muros
caminhar como sussurro

Quisera eu olhar enfim
Sibilino assim
como um suave murmuro
e, então, só haveria escuro...

Quisera, quisera tanto
cobrir-me com a noite, teu manto
mas para mim não há lugar

Quisera... Contudo, entretanto...
não percebo teus encantos
e para mim não há luar

sábado, 13 de dezembro de 2008

Futura saudade



Como nas histórias mais belas,
de palavras colhidas em cestos de vime
deixam pegadas em terra firme
e querem mais altas as estrelas

Fecham os olhos e basta um segundo
— Vejam: uma bola de futebol em forma de lata!
O grande herói, ou o mais cruel dos piratas
Viajam para qualquer lugar do mundo

E eu os vejo em meu pensamento
Como as cores do catavento
Ou comandantes duma enorme nau

Ah, mantê-los assim... Minha esperança!
Mas logo serão primaveras em minha lembrança
Crianças que correram em meu quintal

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Algum dia, Fátima...



Onde fomos algum dia, Fátima?
Dias em que a chuva veio
Dias em que o rio esteve cheio
Até transbordar em lágrimas

Cegos, algum dia, por um caminho desprezado
procuramos uma sombra que nos acoite
mas nada resta... nem Florbela, nem a noite
nem um sorriso desgraçado

Mas, algum dia... Algum dia é muito vago
Vago demais para um pacto
como um nenúfar perdido num lago

Tão vago, mas não lago... Agreste!
Como a vida de um cacto
Como a saudade do beijo que me deste

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Domingo, enfim



Canto aos dias de domingo perdidos
às manhãs, meios-dias e fins de tarde
em silêncio, com meu jornal repetido
Canto em paz, sem fazer alarde

Canto embaixo das árvores,
um canto descansado, dissonante
que pinta a solidão nos bancos de mármore
um nó na garganta... Rascante!

Canto as notas que auferia
da partitura de domingo, enfim
Canto como preferiria

Mas não é sempre que canto assim
Canto porque é domingo. Domingo de dia!
e domingos são dias sem fim

sábado, 27 de setembro de 2008

No fim das contas


Dias se vão, mas não em vão...
É a mais pura aritmética
E deténs toda razão
Em mãos! Menos a trigonométrica

Se te subtrai pela tangente, tanto faz...
Então, o que me somam cossenos?
Pois, no fim das contas, cada dia a mais
é, na verdade, só um dia a menos

sábado, 6 de setembro de 2008

Pela Madrugada


Somes, às vezes, em névoa, na estrada
Sem ver, procuro-te ainda no escuro
Saio por ti, mas não é seguro
pois já és alvorada

– Não me aches! – pedes, contrariada
Cercas-te por um muro
que – rogo eu (logo eu...) – cairá no futuro
ou, quiçá, na nova madrugada...

E somes, com tuas certezas
Partes de vez até amanhã... Nem me despeço
E de manhã, restarão lâmpadas acesas

Somes, agora, por dentre espadas e cruzes
E até penso em pedir, mas não peço
que antes de amanhecer, apagues as luzes

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Canção por uma lágrima


Choras por chorar... Por nada, por ninguém
e nestas doces lágrimas a ti invejo
pois chorar sem porquê é meu desejo
não apenas por sonhar, nem por não ter alguém

Choras por pureza... Um choro que apenas vem...
Cada lágrima um ensejo
Não derramo nada... Nem pelo que vejo,
nem por não amar, nem por não ter a quem

Cancioneiro, cancioneiro... Tua poesia jamais finda
Então, diz-me por que chorar!
Diz-me por que não chorei ainda...

Faz-me uma lágrima, mesmo que não seja linda...
Por que apenas por podê-la derramar
minha lágrima será bem vinda

domingo, 10 de agosto de 2008

Ao pai



Pai, onde estás, meu pai?
Aonde vais?
(Meu pai, que estás onde estás...)

Pai,
alimenta-me... Tenho fome...
(... desmistificado seja teu nome...)

Pai,
não encontro mais meus brinquedos
(... venham a mim os teus medos...)

Pai,
abraça-me, que sinto saudades
(... sejam desfeitas tuas verdades...)

Pai,
temo o que esta vida encerra
(...seja no céu, seja na terra...)

Pai,
cobre-me, que a madrugada é de ventania
(E o julgamento de cada dia...)

Pai,
não me mantenhas tão longe
(..nega-me apenas hoje...)

Pai,
de horas de silêncio tão intensas
(...aceita minhas descrenças...)

Pai,
jamais foste esquecido
(...como aceitei-me perdido...)

Pai,
não enxergo nesta escuridão
(... e não me falte tua mão...)

Pai,
Meu pai, do começo ao final
(...nem me leves a mal...)

Pai,
Que assim sejamos... Amém
(...ou além!)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Lídia e as orquídeas



Lídia, deixa-me sozinho
que provei das agruras dos fracos
bem distante quanto as estrelas em Draco
E era tão bom! E era teu ninho...

E, enfim, encontraria os delírios de Baco
em teus lábios de linho
Não, não era vinho...
Cheiravam a tabaco

Lídia, Lídia...
O que fizeste às orquídeas?
Pensei que fugiam...

E pensei que era sono
mas já era outono
e as folhas caíam...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Soneto da Partida










Partirei porque partirei
Assim, apenas! Não porque havias partido
E, deste estado a partir, até sei
que nenhuma partida faz sentido

Partirei não antes de novembro
mas que me leve o pensamento ao porto
de tão leve que, de pensar, nem me lembro
e de não lembrar que, ao partir, já esteja morto

Não parte em dezembro senão porque é janeiro
E, de tanto que não parti, já nem sei onde chego
E, de tanta água no rio, já vejo-me cego

Parte, hoje, o barco... parte por inteiro!
E talvez nem parta porque, de partida, me entrego
como lágrima de mágoa na imensidão do Negro

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Calçada de Domingo





















Já acordara a beijar o solo com semblante ranzinza
E nas palavras dos sábios:
De que haviam estes lábios
tentar roubar-lhe o cinza?

Um dia ao beijá-la com tamanho impacto
havia de sair ferido decerto
mas, tal como bloco de concreto
permanece o peito hirsuto, ileso, intacto

Lá estava quem me tinha por vencido
e imóvel persiste!
Soubera ela que quem apenas nos sonhos existe
não pode ter numa calçada amanhecido?

Inda posto a levantar, via cada passarela
e os quarteirões, meios-fios e sinaleiros...
praças, esquinas, o mundo inteiro
tudo inicia, termina e pertence a ela

Afinal, é ela de tudo a base, o chão,
o porquê de alguns decidirem calar
enquanto prefiro por ela passear
sem rumo, até seqüestrar-me a razão

Jaz sobre ela o papel de lar de tantos aflitos
é dela a única certeza de saudade
a vastidão de todas numa única cidade
o cerne da paz e do conflito

Ungida pelo pó de meus versos tão banais
estes lembrá-la-ão dos que a perseguem
e que os passos por ela passam, seguem
mas as pegadas não a deixam jamais

Lê-se em sua construção
que repousa no olvido
que a música nunca fez tanto sentido
que nem tudo é rumo para a ilusão

Infringida por um corpo mendigo
uma alma presa à pedra inacabada
tal como é sutilmente repousada
na calçada uma manhã de domingo

Agora em seus canteiros um sonho malfazejo
de buscar as mãos, o colo da calçada
e olhar em seus olhos na alvorada
antes de dar-me de novo ao seu beijo

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Chorinho a dois





















- Amigo...
(- Diga o que há?)
- Preciso do teu ombro...
(- Você terá!)
- Meu lar está em escombros...
(- Você andou ausente...)
- É... Eu estou resignado...
São fantasmas do passado...
(- Tem que olhar pra frente!)
- Mas na vida se sofre no presente...


- Parceiro....
(- É com você!)
- Estou sem saúde...
(- Não posso crer...)
- Perdendo a juventude
(- Estamos, sim!)
- É... a alegria está aquém.
E eu não tenho mais ninguém.
(- Você tem a mim!)
- Liberdade pode ser ruim!


- Antônio...
(- Diga, José!)
- A moça me deixou...
(- Mantenha a fé!)
- E de nós nada restou...
(- Conte-me mais!)
- É... Acabou-se a lua-de-mel...
Hoje, o meu teto é o céu
(- Força, rapaz!)
- Solidão já não me deixa em paz...


- Amigo...
(- Vamos lá!)
- E isso no meu peito?
(- Já vai passar!)
- Do que é feito?
(- Da vida a dois!)
- Ah... Sinto-me tão sozinho...
Eu choro como um cavaquinho...
(- Vai curar depois!)
- Vamos juntos num chorinho a dois!


- Ei, amigo...
(- Qual é a idéia?)
- Passe-me o tablóide!
(- Notícia velha!)
- Que tal um Pink Floyd?
(- Uma boa idéia, afinal!)
- Ah... Já estive bem pior
Dentre os amigos, você é o melhor...
(- Já estou sentimental!)
- É... Amizade nunca tem igual...


(Uma singela homenagem aos amigos)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Gritar por gritar





















Queria gritar, mas já anoiteceu
e o mundo aqui dentro... bem, escureceu
Vão me faltando os lenços
e uma pedra para ferir o silêncio

Queria gritar só por gritar, mas gritar de um jeito
Pôr para fora do peito
aquilo que me arde
mas não posso... já é tarde... já é tarde

Mas, amanhã... amanhã, será diferente
Vou gritar bem cedo
Chega de ter medo!
Vou gritar um grito que conserte a gente...

domingo, 15 de junho de 2008

Obra de Deus





















Andei pensando e nem mais duvido...
Quem definiu felicidade
não fora feliz de verdade
havia apenas enlouquecido

Pensando e pensando depois de partido...
Tu que inventaste a saudade
agora diz-me a finalidade
que, para mim, não faz sentido

E os que se julgam tão esclarecidos
dizem, em tom de ironia:
- Meu jovem, delírios teus!

Não dou ouvidos...
Prefiro chamar de poesia
ou, simplesmente, “obra de Deus”

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Quis um poema sobre a tristeza...





















Quis um poema sobre a tristeza
para descrever a noite de frio
e das cousas a natureza

Quis viver os dias com frieza
mas não estou vazio
ainda há gotas de pureza

Quis um momento de clareza
para viver arredio
para viver tanta beleza

Quis pensar sem tanta certeza
sobre a vida por um fio
sem palavras sobre a mesa

Quis escrever um poema com tristeza
mas não me deixou o rio
não me deixou a correnteza