
Sei lá se é apenas teu costume
Não obstante, alguém à distância
visitar-te a lembrança
E tomar-te o perfume
Há quem apenas te assista
acariciar as flores
dar vida às paisagens sem cores
e levar as páginas das revistas
Mais que isso, teu sopro fascina
– confessam as criaturas mais mundanas –
no balanço das canaranas
ecoas a mim: – Tua terra, minha sina
E em meio às partidas mais inglórias
enovela-te nos lugares mais profundos
aliviando todas as dores do mundo
em suas asas, minhas memórias
És quem me assobias os versos de Camões
e nunca se sabe o que trarás
Tu sabes? Então, assobia mais
para libertar-nos dos grilhões
És mais que bastante, outrossim
justo, porém traiçoeiro
Trouxeste de volta o primeiro
sem te explicares a mim
Ah, Vento! Sei lá...
Nem sei o que sentir
Apenas sei que sem ti
Não existe nenhum lugar
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Sei lá, Vento...
Autor:
Raphael Alves
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16:37
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sexta-feira, 18 de abril de 2008
Pequena análise do tempo

Um certo dia, quis que coubesse
nas primeiras entrelinhas
uma palavra que não fosse a minha
Nesse passado, implorei que viesses
após o inverno com que ainda sonhas
ou numa daquelas primaveras risonhas
Hoje, apenas gostaria que soubesses
que se foram as águas de março
e eu nem sei o que faço
Mas amanhã, espero que confesses:
Estes versos já foram lidos
mas nada me impede de sussurrá-los em teus ouvidos
Autor:
Raphael Alves
às
01:06
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
Soneto Quadrilátero

Vivo em meio a um quadrilátero
que me parece desigual
longe da medida ideal...
Mas que – juram seus lados – é equilátero
Vivo enquadrado pelos quatro elementos:
ar, água, terra e fogo
como os dados de um jogo
no tabuleiro da rosa-dos-ventos
Vivo enquadrado em trâmites do Direito
enclausurado dentre trovas
sufocado em ar rarefeito
Vivo enquadrado... Antes fosse apenas suspeito!
E estes versos – confesso – são as provas
evidências de um crime imperfeito
Autor:
Raphael Alves
às
22:50
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sábado, 29 de março de 2008
Ensaio sobre a aridez

Ora, vamos...
Sei que falareis
sobre os solos inférteis
narrados por Ramos
Sobre tais vidas secas
sobre sedes inglórias
não tenho provas, mas muitas memórias
histórias quixotescas...
Então para que ledes sobre cegueira e lucidez?
A loucura que se manifeste
em dias ardentes como chama
Pois quero mesmo a aridez
num sopro de vento agreste
que me devolva aos lábios secos do Atacama
Autor:
Raphael Alves
às
16:03
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sexta-feira, 21 de março de 2008
De ondes...

De onde a angústia vem?
Vem com o calor, ou como calafrio?
Vem pelo ar? Vem pelo rio?
Vem por que, quando e de quem?
De onde vem tal questão intransitiva?
Sem complemento...
A todo momento...
Solta em mim, à deriva
De onde vem o verbo a que me refiro?
Se antes de dizê-lo
já o retiro
Por que seguiu para o horizonte?
E já que não pude detê-lo
alguém me esconda... alguém me conte
Autor:
Raphael Alves
às
20:34
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quarta-feira, 5 de março de 2008
Quase um soneto sobre o que não se soube dizer

Preciso de um verbete... apenas um
que tenha algo a falar
ou que ao menos sirva para completar
seja simples como um ‘oi’, ou um verbo incomum
Preciso de uma palavra para quebrar esse jejum
com a qual eu cansaria de dialogar
e também de alugar
sem chegar a lugar algum
Só preciso de uma palavra...
Uma palavrinha qualquer...
ou de um dicionário inteiro!
Uma que ilustre o que é
ser desta falta de palavras prisioneiro
(...)
Autor:
Raphael Alves
às
21:14
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sábado, 1 de março de 2008
Diário de viagem

Houve muitos dias...
Muito mais que alegrias
escondidas na bagagem
desta curta e finita viagem
Houve fantasia...
Muito mais que poesia
escolhida numa triagem
para esta longa e infinita mensagem
E há este relicário
cujo valor imaginário
é o de um dia que fora eterno
Mas acaba em São João
e se todos verão
eu, humildemente, inverno
Autor:
Raphael Alves
às
19:01
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Fotógrafa

Não sei se és tu que borboleteias
Por minhas ruas... fascinante
Com sorrisos de quarto minguante
Em bocas de lua cheia
Não sei o que te encanta
neste som do Ibañez
naquilo que ouves e vês
Não sei que poesia decantas
Não sei o que procuras com tal ânsia
O que estás a bisbilhotar?
O que para ti roubas com ganância?
E se és tu, simplesmente eu não sei
Mas foi esse teu olhar
e sua precisão o que sempre procurei
Autor:
Raphael Alves
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19:00
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Subtração

É sobre este estado de subtração
com milhas e milhas de falso pudor
que se apresenta em Novo Airão
e compreende o Estirão do Equador
E é sobre a serenidade que vive a viajar
E nem deixou seus votos por aqui
Não me encontrou em Amaturá
tampouco achou-me em Beruri
É sobre o ladrar dos cães
e sobre o silêncio que já descansa em paz
É da cor de Alvarães
e da textura de Codajás
É ainda o porquê destas palavras afins
que jorraram pela semana inteira
ao nascerem em Tonantins
e seguirem para São Gabriel da Cachoeira
E nunca quis soar estranho
com pretensões de mundos inteiros
Pois não foi várzea nem castanho
Refiro-me aos Careiros
Mas sempre foi sobre a descrença
deitada nua em pleno divã
que sequer fora a São Paulo de Olivença
mas implorava por Benjamin Constant
Autor:
Raphael Alves
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00:44
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Soneto pela folia

Apenas porque são de carvões e cristais
saudosas fantasias...
Travestidas noites em dias
por estes e outros carnavais
Em meio a máscaras, um encontro fugaz
que, se pelo momento reinasse,
desenharia uma lágrima na face
e pela alma que ali jaz
Pois, como Pierrot, quisera eu a alegria
de desaparecer pelas esquinas
em travessuras de Arlequim
E neste soneto pela folia
que fosses Colombina
e teus versos, somente para mim
Autor:
Raphael Alves
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01:23
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Devoluta Tempestade

É de tom plúmbeo o olhar
diante de amarga interjeição
que traz o núbil assimilar
entre loucura e perfeição
A precipitação que confesse
como há de enfrentar angústia assim
ao que o gáudio perece
armada com nuvens de silêncio sem fim
Ora, é esta chuva sobre a cidade
com gotas de tua lavra
que beija a fronte da ansiedade
E esta tempestade que não se aceita ilidida
resume-se a poucas palavras
dolorosas, porém, carinhosamente devolvidas
Autor:
Raphael Alves
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01:57
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sábado, 5 de janeiro de 2008
Irrenunciável

Se de pedras e asfalto ao avesso
fazem-se essas ruas vadias
É em nuviosa melodia
que ao canto desapareço
Pelo tempo, o nosso apreço
inda maior seria
Se no fim da ventania
soprasse o recomeço
Com punhado de terra e água
misturados sorriso e mágoa
fez-se história de raiz forte
Contada à nossa maneira
com rimas de vida inteira
e capítulos para além da morte
Autor:
Raphael Alves
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03:54
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sábado, 29 de dezembro de 2007
Réquiem para a derradeira lágrima

Porque do tempo corres cedo
por entre vilas maltratadas
amolecendo o asfalto, as calçadas
num domingo de arremedo
Porque te fazes sentida
em tudo o que revelas
Até às cores da aquarela
trazes o dom da vida
Porque passeias entre campos e cidades
comigo... Desfilando finalidades,
umedecendo a face avulsa
Tal como lágrima reinventada
Quente, destilada,
solitária e insulsa
Autor:
Raphael Alves
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17:59
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segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Sobre imagens e palavras

Enquanto revejo os últimos dias
Sereno, meu corpo inerte
aguarda que minha mente disserte
sobre se tu, Palavra, a mim voltarias
Palavra, nesta tua viagem
nesses teus dias de ausência
deixaste num inquietante vazio de eloqüência
a mim, que me chamo Imagem
Mas em momento apropriado
sobre esta vida de significante e significado
falarei em um ou dois comentários:
Despidos da mais nobre alegria
com suas cestas de palavras sem poesia
pobres mesmo são os dicionários...
Autor:
Raphael Alves
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02:20
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quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Do que se tinha em mãos

Já foram as cores tão desbotadas
E tudo o que prometo
Tantas as semanas passadas
Tomando a forma de um soneto
Se há nuvens no céu
Contemple-as enquanto lá estão
Não importa se numa folha de papel
Ou na nota desafinada da canção
Benditas as palavras poucas
E as vozes que soam roucas
Porque delas ainda dispomos
Mas foi-se o dia...
E foi-se a poesia...
E foi-se o tempo em que éramos o que somos
Autor:
Raphael Alves
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02:11
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quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Carta ao relógio

Minutos escapam aos meus dedos
Inconstantes...
Trazem com sua partida os meus medos
Receios de um jovem errante
Se tenho de caminhar sozinho
Que seja no fim do ano
Deixo hoje em meu caminho
Apenas as pegadas do cotidiano
É hora de enfrentar novas batalhas
Vestir minhas armas, como sempre faço
Levantar e calçar minhas velhas sandálias
Se o relógio é Vivaldi, eu sou Beethoven
Ele insiste em trazer outras estações em seu sonoro compasso
Mas é aos meus passos, somente a eles que os tempos ouvem...
Autor:
Raphael Alves
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18:13
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terça-feira, 2 de outubro de 2007
Pequenos versos para o céu...

Alcançar o céu, uma longa viagem...
Despedaçado da tentativa... hora de reunir o que restou
Sei que terei que atravessar o rio até a outra margem
Mas é em busca daquelas nuvens no horizonte que eu vou
Autor:
Raphael Alves
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22:34
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Depois da travessia
Lembrando da terra em que foi garoto
Das vezes em que observou o bom humor do boto
Ele que remou o dia inteiro...
Líricas são suas redes de pescar
Trazem notícias e tantas novas histórias
Antigas virtudes, recentes glórias
Uma nova jornada para relatar
De tantas travessias, a mão calejada pelo remo
Suportou o vento e seu eloqüente açoite
Força que vinha da vida que deixou para trás
Ah, não poderia haver regresso mais sereno
Depois de mais uma solitária noite
Que estar de volta aos braços daquela que deixou no cais
Autor:
Raphael Alves
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02:42
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quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Escultura

E eu era apenas um menino...
Pronto para embarcar na companhia de pessoas estranhas
Em busca de novas façanhas
Que sustentassem este corpo franzino
E eu era só um menino...
Admirando o vento sobre as águas
Esperando que ele soprasse para longe as minhas mágoas
Ah! Aquelas vagas esperanças de meninos...
Mas não sou mais aquela criança
Gravei meus passos nos pisos de várias cidades
Sobrevivi a mentiras, saboreei verdades
E com o tempo foi-se parte da esperança
Hoje, sei que ainda tenho muito a contar
Sobre decepções, paixões, amizades e glórias
Fábulas, contos, crônicas, poesia... muitas histórias
Só estou cansado demais para continuar
As palavras? Ah, essas não encontro mais...
Só um sentimento de pura leveza
E uma única e derradeira certeza
De que as coisas que vivi e senti permanecem iguais
E, agora que as palavras abandonaram seu posto
Vou descansar, deixar que as redes me embalem
E permitir que, enfim, falem
As linhas da vida esculpidas em meu rosto
(Apenas olhem por mim...)
Autor:
Raphael Alves
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21:32
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terça-feira, 21 de agosto de 2007
Errante trovador

Canto estas trovas como um bardo
Para muitos, murmúrios dispersos
Mas alivia-me o fardo
Entregar aos ventos estes versos
A léguas de visão turva
Reconheço os grãos de areia desertos
E enxergo depois da curva
Os que me aguardam de braços abertos
Guio-me pela estrela ao norte, cintilante
E por mais que o tempo evapore-se
Prossigo assim, despreocupado, errante
Ando, ando... pois minha sina é seguir
E deixar que o passado enamore-se
Pelas rimas que meus passos ainda hão de proferir
Autor:
Raphael Alves
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21:51
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